sexta-feira, 23 de março de 2012

Um Galope Para o Umbuzeiro


Frondoso e bonito, o velho umbuzeiro
Que brotou das fendas abertas da terra.
Cresceu num aceiro do pé de uma serra
Passando agruras o tempo inteiro.
Foi ficando forte a cada janeiro,
Mudando a paisagem que tem no lugar.
Felizes daqueles que vem contemplar,
Seu verde, a sombra e sua doçura
O doce da fruta na forma mais pura
Que o puro da brisa que sobra do mar.

(Júnior Guedes)
Parafuso de Cabo de Serrote

A mais perfeita descrição de uma bodega do interior nordestino:

Tem uma placa de Fanta encardida
A bodega da rua enladeirada
Meia dúzia de portas arqueadas
E uma grande ingazeira na esquina
A ladeira pra frente se declina
E a calçada vai reta nivelada
Forma palmos de altura de calçada
Que nos dias de feira o bodegueiro
Faz comércio rasteiro e barateiro
Num assoalho de lona amarelada.

Se espalha uma colcha de mangalho:
É cabestro, é cangalha e é peixeira
Urupema, pilão, desnatadeira
Candeeiro, cabaço e armador
Enxadeco, fueiro, e amolador
Alpercata, chicote e landuá
Arataca, bisaco e alguidar
Pé de cabra, chocalho e dobradiça
Se olhar duma vez dá uma doidiça
Que é capaz do matuto se endoidar.

É bodega pequena cor de gis
Sortimento surtindo grande efeito
Meia dúzia de frascos de confeito
Carrossel de açúcar dos guris
Querosene se encontra nos barris
Onde a gata amamenta a gataiada
Sacaria de boca arregaçada
Gargarejo de milhos e farelos
Dois ou três tamboretes em flagelo
Pro conforto de toda freguesada.

No balcão de madeira descascada
Duas torres de vidro são vitrines
A de cá mais parece um magazine
Com perfume e cartelas de Gillete
Brilhantina safada, canivete
Sabonete, batom... tudo entrempado
Filizolla balança bem ao lado
Seus dois pratos com pesos reluzentes
Dá justeza de peso a toda gente
Convencendo o freguês desconfiado.

A Segunda vitrine é de pão doce
É tareco, siquilho e cocorote
Broa, solda, bolacha de pacote
Bolo fofo e jaú esfarofado
Um porrete serrado e lapidado
Faz o peso prum março de papel
Se embrulha de tudo a granel
E por dentro se encontra uma gaveta
Donde desembainha-se a caderneta
Do freguês pagador e mais fiel.

Prateleiras são tábuas enjanbradas
Com um caibro servindo de escora
Tem também não sei qual Nossa Senhora
Com um jarrinho de louça bem do lado
Um trapézio de flandres areados
Um jirau com manteiga de latão
Encostado ao lado do balcão
Um caneiro embicando uma lapada
Passa as costas da mão pelas beiçadas
Se apruma e sai dando trupicão.

Tem cabides de copos pendurados
E um curral de cachaça e de conhaque
Logo ao lado se vê carne de charque
Tira gosto dos goles caneados
Pelotões de garrafas bem fardados
Nas paredes e dentro dos caixotes
Tem rodilha de fumo dando um bote
E um trinchete enfiado num sabão
Bodegueiro despacha a um artesão
Parafuso de cabo de serrote.

(Jessier Quirino)

E abaixo você pode conferir o áudio com o próprio poeta declamando:


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Reunião


Atenção integrantes da AJUPTA,  a próxima reunião desta associação acontecerá no domingo dia 04/03 às 14 hrs na escola Arnaldo Alves. Contamos com a sua presença.
Balaio Cultural

Grande Cantoria

No próximo sábado acontecerá mais uma grande cantoria em Tabira. O local do evento será o Salão de Antônio de Zé Moreno no sítio Fazenda Nova.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Extra! extra! Publicação de Dez Cordéis Inéditos!




O Poeta Felipe Amaral, membro da AJUPTA e glosador participante da Mesa De Glosas de Tabira, publicará brevemente dez cordéis que dizem respeito a supostos acontecimentos fantasmagóricos que se deram na cidade de Tabira.

Diz ele que, depois de extensa pesquisa, havendo já entrevistado dezenas de personalidades-chave para o total levantamento de "subsídios narrativos" voltados aos assuntos requeridos pelos cordéis (que, aliás, disse já estarem todos redigidos e prontos a irem ao prelo), confirmou o que já "corria pela cidade", que no próximo mês de Março dará cabo à impressão e eventual publicação dos livretos. Serão eles vendidos a preço bastante módico, pois, como afirmou "não vamos dar azo à exploração usando como pretexto a cultura". Custará cada exemplar somente R$2,00.
Por desfecho, fez questão de citar nomes que figurarão na obra (ou melhor, nas obras!): Assis Brejinho - na história da "Noiva do Corredor", a qual, em tempos longínquos, "dava as caras" nos corredores da Escola Arnaldo Alves; "seu" Aristeu (pai de doutor Eduardo) - na história do fantasma do antigo açougue, que tem por título "O Malassombro Açougueiro"; Zé Guarda ou Zé de Mirôcha - na história d'A Visão de Genefride, que se deu nas dependências da Escola Carlota Breckenfeld; "seu" Nêgo Orácio - presente na história d'A Visão de Apolônio, primo seu que  (supostamente!) apareceu-lhe em uma noite de sexta-feira 13 na prefeitura municipal; Josete, mais conhecido por Bodeco, que relatou "ocorrências paranormais" dadas nas dependências do cemitério público; e outros nomes de pessoas sempre bem conhecidas na cidade e que têm muito a contar acerca de histórias que ainda povoam a imaginação de muitos dos nossos conterrâneos.
Não esquecendo ele de deixar bem claro sua desconfiança quanto aos contos, mas ressaltando o valor cultural-literário do conteúdo dos relatos apanhados, o poeta Felipe expressou sua opinião quanto a seu desejo de ver mais sendo feito por tal tipo de levamento literário-cultural, que, afinal, como disse, "demonstra a riqueza (ainda que supersticiosa, mas criativa) narrativa de um povo de tão pequena cidade, mas tão forte impulso criativo".

Desde já, ficamos no aguardo*.





*não dá pra ver, mas eu estou cruzando os dedos para que tudo dê certo. Afinal, de uma maneira ou de outra, todos temos nossas superstições! Não é verdade?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sem Máscaras



É quarta-feira de cinzas 
Dia de graça e desgraça 
Passa o perfume da lança 
... Passa a ressaca da taça 
Mas a saudade que fica 
É tão cruel que não passa 

Morre a batida do bumbo 
Que deu compasso à folia 
Finda um filme colorido 
Intitulado "alegria" 
Mas fica um gênio escondido 
Cochichando em cada ouvido: 
"acabou-se a fantasia" 

Passa a chuva dos confetes 
O bloco da liberdade 
O baile dos devaneios 
E o som da felicidade 
Mas, num contraste medonho, 
Fica um pierrô tristonho 
Trocando a máscara do sonho 
Pela da realidade

(Dedé Monteiro)